sábado, 12 de novembro de 2011

Em busca da liberdade sartreana

                                                   

            O conceito sartreano de liberdade é bastante pertinente nos dias de hoje, não? Para quem não conhece o filósofo, Jean- Paul Sartre (1905- 1980) é ideólogo de uma corrente filosófica interessante, o Existencialismo, além de ser considerado um renomado romancista e teatrólogo. Seus escritos e modos de ser peculiares reverberaram, na história, num certo “estilo vida existencialista”, a partir dos anos 40, com movimentos propositivos que afirmavam o valor do engajamento político, a máxima da liberdade, a crítica da insanidade da guerra e, principalmente, a busca de espaços alternativos de expressão para o homem.
Sartre era uma figura interessante, um filósofo inquieto, feio e cheio de tormentos. Um pensador que cativava e desconcertava  por fazer provocações intensas... Aquelas provocações  que nos reconduz a nós mesmos. Sartre foi este tipo de filósofo!
Agora, penso ser uma discussão pertinente trabalhar as idéias de Sartre, principalmente a idéia de correlacionar liberdade e responsabilidade, até porque, hoje em dia, muitos advogam o contrário da prerrogativa existencialista, trazem a ideia de que liberdade é poder fazer tudo que se quer ou agir segundo a sua própria vontade, confundem liberdade com permissividade.
Vejo como interessante a conceituação de liberdade do pensador referido por ela seguir um outro viés, primeiro porque ele diz que liberdade absoluta não existe, o filósofo não nega a evidência de certas facticidades e condicionamentos que nos limitam, que limitam o nosso agir livre, para ele existem sim certas coisas que acontecem “alheias à nossa vontade”. Isso é fato! Ao assentir que o homem vive uma existência concreta, situada no tempo e no espaço, já está claro que existem condicionamentos, que as nossas ações são limitadas pela sociedade e as suas regras, convenções e situações limites, mas, lembre-se da máxima: de que “o importante não é o que fazem do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”. Para Sartre ser livre é fazer as escolhas, e somos responsáveis por cada escolha em nossas vidas (nada nos exime, não há desculpa para nós!).
Mas, é possível superar toda essa facticidade e condicionamentos que nos limitam? Não sei, não sei... Só sei que o existencialismo satreano, demonstra com isso, que é carregado de conotação moral e, confesso que isto me incomoda. Ele critica os idealistas, de colocarem aquele “atributo essencial sem o qual um determinado ente não poderia ser nem ser pensando” (da “essência preceder a existência”), critica a idéia de um modelo explicativo utilizado para descrever a condição do homem, anterior a qualquer a qualquer existência.  Para o filósofo a essência do homem é resultado de sua ação (“a existência precede a essência). Mas, ele não nega que exista uma condição humana universal, não nega uma “moral da ação”, uma moral interessante, mas um tantinho conservadora.    
Em segundo lugar (e esta parte me encanta!) porque a ação livre, para Sartre, se configura numa proposição sobre o indivíduo particular, é como se este pensador estivesse propondo um movimento necessário de procura do eu (como se você tivesse se reconduzindo a você mesmo) e,  daí a possilidade de superação dos condicionamentos e situações limites e a necessidade de ser mais autêntico, ser livre. Além, é claro, de colocar que a liberdade e a ação responsável perante o outro caminham juntas, que a ação livre implica a assunção do outro, o respeito à alteridade e o forte engajamento político ("ao escolher para si, você escolhe também para o outro!"). Esta parte é legal.
Gosto muito do ponto em que toca na questão da má- fé, totalmente diferente do que se entende habitualmente, agir de má-fé é viver no mundo da impessoalidade, do viver na facticidade, totalmente alheio a si mesmo, é abrir mão de buscar a sua verdade e seguir as convicções e certezas dos outros, é a própria anulação como pessoa(uma queda ontológica).  
Agora, voltando na colocação sobre ser pertinente e urgente debater questões sobre a liberdade em sala de aula com os jovens... Vivemos em tempos difíceis, "de desatino”, não?  Daí, eu sugiro um plano de discussão com as seguintes indagações: Será que realmente tudo é permitido? Até onde é possível ir? Liberdade é fazer tudo que se quer? Nesse sentido, é “proibido proibir”? Não existem limites para a ação do homem? E a coexistência humana, como fica? O que significa, de fato, liberdade?
É apenas o início de uma discussão sobre o assunto e a sua interface com a responsabilidade, não? E, depois dessa conversa inicial, faz-se necessário introduzir o conceito sartreano de liberdade, tentar trabalhar este fazer-se livre, um conceito com conotações fortemente engajadas, na assunção de si mesmo, do outro e do mundo. É isso!

   

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Referenciando todos os tipos de subversividade, em poesia! Ferreira Gular

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                                                                 Subversiva- Ferreira Gular

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uma reflexão sobre a “dúvida metódica”


É bem interessante estimular os alunos a questionar tudo, duvidar do senso comum, da retórica de certas autoridades religiosas e políticas, de nossas percepções, dos preconceitos sutis que se manifestam em nosso dia a dia... Enfim, a necessidade da dúvida como o ponto de partida para a busca de um conhecimento verdadeiro é fundamental. É neste momento que o pensamento cartesiano faz sentido e, não é possível ser refratária a Descartes.
O referido filósofo é bastante consistente ao colocar a dúvida como ponto de partida para se atingir o conhecimento, não passível de enganos, irrefutável. Ao construir o seu ideário, começa duvidando de tudo e de todos. E diante de seu próprio ser que duvida, suspende esse movimento de incertezas: “Se duvido, penso, se penso existo: Penso, logo existo”, “Cogito, ergo sum”. Para o filófoso racionalista, este é o princípio primeiro, o elemento fundante de todo pensamento cartesiano, a afirmação de que somos “puro pensamento, um ser pensante (uma res cogitans)”.
Esta preocupação com o problema do conhecimento e a ênfase na “dúvida como método” para ter alguma certeza, é incrível! Não é a toa que Descartes é considerado “o pai da filosofia moderna”
Agora, duvidar é preciso, principalmente, dos que advogam posições dogmáticas e sectárias com relação às esferas da vida política, religiosa e afetiva, até porque, estas pessoas extremadas se consideram detentoras de certezas e verdades absolutas, fixam nelas e abdicam daquela atitude filosófica perante o mundo (o que não é nada bom!).
Mas, existe o outro extremo do dogmatismo, não é? O ceticismo é o outro extremo! Ele traz uma visão de mundo estanque e, também, vazia, pois se funda na “impossibilidade do conhecimento verdadeiro”. Se eu for levar em conta algumas afirmações céticas de que "a certeza é impossível e a verdade é inacessível", para que, então, buscar o conhecimento? Não vou acreditar em mais nada e vou relativizar tudo. Isto é muito complicado! Na prática, se converge na atitude de indiferença em relação a tudo, indiferença ao próprio saber e, muitos jovens já estão assim, indiferentes e embrutecidos em relação ao processo do conhecer, aos valores humanos e as mazelas sociais. Isso também não é nada bom!  A dúvida é o método, é o começo...

sábado, 22 de outubro de 2011

Política, Pluralidade Cultural e Educação para os Jovens

          


            Lendo sobre a experência pessoal de Hanna Arendt, vivida nos tempos do totalitarismo alemão, entendi com clarividência o conceito de pluralidade humana como princípio fundamental para a consolidação de uma sociedade mais humana e democrática. 
             Ao evocar a política não só em seu sentido teórico, mas “enquanto construção de um espaço de ação e da palavra, de indivíduos singulares e plurais”, ela manifesta-se defensável de que a política verdadeira consolida-se na afirmação do coexistir humano, na multiplicidade de seres, únicos e autônomos que assumem a responsabilidade pelos acontecimentos nas esferas políticas e sociais.
Ao considerar que, no espaço público, nos assuntos comuns é preciso a participação ativa de todos os concidadãos, leva-se em conta a máxima de que cada um, do seu jeito, tem o direito de ser diferente e crescer valorizado em sua diferença. Assim, a pensadora toca no espectro da segregação política, toca no assunto da intolerância, que muitas vezes se manifesta em ações sutis de distanciamento aos que professam crenças diferentes das habituais, aos que têm modos singulares de ser, aos que são considerados “inferiores” no tocante a etnia ou gênero...  Faz uma reflexão sobre a prática política autocrática, de destituir de muitas pessoas o direito de viver com dignidade neste mundo.
Agora, sobre o trabalho deste tema com os jovens do Ensino Médio, penso que antes de preparar uma aula a respeito do assunto é preciso que o professor tome para si, a assunção de um novo ideário, o da prática inclusiva em sala de aula, um novo jeito de ver o mundo, um jeito que objetiva o crescimento do aluno como pessoa humana, menos embrutecidas e total em sua abrangência e alteridade! Seus procedimentos precisam ir além do desenvolvimento da intelecção pura e sim, em uma prática multicultural, o que pressupõe a fomentação na sala de aula de muitos questionamentos sobre as diferenças e a aceitação delas como parte de nosso crescimento.
As sugestões de aulas sobre a importância da ação de sujeitos autônomos e plurais no espaço público e o seu contraponto, que é a segregação, a exclusão e a intolerância com relação a certas minorias, poderia sim ter como base os próprios fragmentos sobre política da filósofa citada. Existe o livro O que é política? Fragmentos das Obras Póstumas Compilados por Ursula Ludz (alguns fragmentos são acessíveis aos alunos e podem ajudar no melhor entendimento de política).
Fora, as produções fílmicas contemporâneas que tratam de períodos políticos autocráticos, sobre o poder político legitimado pela ação cerceadora e repressiva do Estado, o desrespeito a emancipação política das pessoas e a prática segregacionista e intolerante do opressor quanto a certas experiências culturais distintas... Um ótimo filme para este tipo de discussão é O pianista, um filme de 2002, dirigido por Roman Polanski.
Até mais!



O mito de Sísifo e a absurdidade na sala de aula

“Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto por suas    paixões como por seu tormento. O desprezo pelos Deuses, o ódio à morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a massa recoberta de barro, e de um pé que a escora, a repetição na base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse esforço imenso medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo, então, vê a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a planície.” CAMUS, Albert. Mito de Sísifo (Ensaio sobre o absurdo).

          É fato, a prática docente de Filosofia no Ensino médio, é árdua!
Quantas vezes nos sentimos como no mito de Sísifo, esmorecidos pela absurdidade da situação apresentada em sala de aula.  Além do desinteresse do aluno, pelo que está sendo ensinado, ainda paira em várias pessoas (alunos, pais e gestores da educação) aquela linha de pensamento de que a nossa área é desnecessária por não trazer resultados imediatos, daí a fala na sala de aula que desconcerta qualquer professor de Filosofia: “para que vou estudar isso, se não vou usar na minha profissão?”
Agora, gostaria de fazer uma reflexão a respeito do uso de textos filosóficos puros no início das aulas do Ensino Médio (orientação do currículo das escolas públicas), deixo claro que é apenas uma provocação saudável, ok?
Sei que é preciso não se descuidar da Filosofia e de sua história, mas estou certa de que: antes de ensinar a Filosofia no Ensino médio, é preciso auxiliar o aluno a aprender a refletir, a gostar de pensar por conta própria (este é o grande desafio para nós!). É preciso fazer com que o aluno tenha a “atitude filosófica” perante o outro e o mundo. Um trabalho que deveria começar desde o início, lá com os pequenos...
Além daquela posição sectária sobre a Filosofia de que não tem aplicabilidade no real (o que é um grande engôdo!), existe o grau de defasagem enorme em que se encontra grande parte dos alunos da rede pública de ensino e aí, eu pergunto: como chegar e apresentar de cara, por exemplo, o texto de David Hume sobre o problema do conhecimento e a Ciência (sugestão do caderno do aluno) para o perfil de alunos que temos hoje? Isso é muito complicado! Não estou de maneira alguma subestimando os alunos, eu sei que é grande a possibilidade de transcendência do jovem, mas é necessário buscar caminhas possíveis para auxiliá-los nesse processo todo.
Enfim, para não dar uma de “crítica reprodutivistas” e sugerir algo prático no processo de aula, ando usando alguns recursos imagéticos, como forma de despertar o gosto pela reflexão e o interesse pelas aulas. Penso que o olhar do jovem é atraído pela imagem de um jeito intrigante e isso funciona como um ponto de intersecção interessante para o bom entendimento do texto filosófico. Só é preciso ter o cuidado para selecionar os materiais, com relação aos textos, a necessidade de escolher algo mais próximo e simples. É isso.

Rousseau- Um pensador que destoa de seu tempo

 
                                

“O que Rousseau deplora é que o poder político e a cultura visem a fins discordantes. Pois ele está pronto a absolver a cultura, com a condição de que se torne parte integrante de uma totalidade harmoniosa, e não incite mais os homens a buscar vantagens e prazeres separados”. (STAROBINSKI, Jean. Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo. São Paulo: Companhia das letras, 2011, p. 50).



Pensando em algumas leituras pessoais, descobri que Rousseau discorda de pensadores de sua época, que vêem na ciência, na técnica, na arte (em toda produção cultural), o aprimoramento do seu ethos humano e a edificação de um mundo civilizado. A crítica do pensador é quanto ao otimismo no poder da razão de resolver todos os problemas, ao avanço científico e ao progresso desvinculados de interesses genuinamente políticos e democráticos (temática que mais tarde passa a ser aprofundada pelos frankfurtianos). É por pensar assim que o referido filósofo acabou tendo problemas com alguns pensadores iluministas que faziam parte de seu ciclo de amizades.
          A partir de sua crítica a razão e aos entusiastas do progresso, coloca como oportuna a necessidade de um novo contrato social, que prescreve que todas as somatórias decorrentes destes interesses privados devem estar subordinadas ao poder político, e esta subjugação se dá pelo livre consentimento à lei, ao que é de interesse comum, necessário ao bem estar de todos.
É interessante não perder de vista este viés da política, impactando em transformações positivas para a sociedade, levando em conta a acuidade do conceito de “vontade geral” (tão importante para o filósofo). É assim que fica claro que o que dá legitimidade ao poder político é a participação ativa e autônoma do indivíduo. Ele é “livre na medida em que dá o livre consentimento à lei, por considerá-la válida e necessária”, para Rousseau as visões autárquicas sobre a natureza humana são menores e refutadas (para a construção do homem, não basta a si mesmo!)
Agora, como as suas idéias são bem vindas no mundo de hoje, não? Principalmente se pensarmos sobre como as pessoas entendem a política e participam do espaço público. Hoje, elas estão tão desencantadas com a corrupção, com as atitudes de desmando e de desvio do poder que acabam tendo idéias erradas sobre o assunto e colocam-se apáticas frente as questões coletivas.
De certa forma, é possível ter um alento nisso tudo: neste desencanto das pessoas quanto à política atual, já repousa uma atitude crítica. Não sei se alguém já pensou sobre isto, mas, de fato, ao se tentar demonstrar o estado da falta de sentido nas ações políticas, já se está filosofando, de maneira que a pessoa só não pensa quando se toma a postura de não querer mais refletir, o que é difícil para ser posto em prática. No ser humano, tudo convergem a reflexão.
O problema é saber se,  será possível passar da crítica para o estado da busca pelo sentido político e a assunção de responsabilizar-se pelo espaço público, é  neste momento que  a situação fica complicada.